sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O Banco Nossa Caixa

O Banco Nossa Caixa, cujo controle foi adquirido pelo Banco do Brasil (BB) do governo do Estado de São Paulo no final do ano passado, apresentou prejuízo de R$ 349 milhões no primeiro trimestre de 2009, em comparação a um lucro líquido de R$ 115 milhões em igual intervalo do ano passado e de ganhos de R$ 51 milhões no último quarto de 2009. Cláudio Guimarães Junior, diretor de finanças e de relações com investidores da Nossa Caixa, explicou que o resultado negativo deveu-se a ajustes para equalização dos critérios contábeis da instituição em relação aos do BB e a "obrigações por conta da transferência do controle acionário", realizado em março último, quando o BB assumiu o banco.

Os ajustes reduziram os ganhos da Nossa Caixa em R$ 312,8 milhões e tais ajustes, disse Guimarães, são normais em processo de mudança de controle. Influenciaram os resultados também, em especial, as provisões adicionais contra crédito de liquidação duvidosa de R$ 174,7 milhões realizadas no período e despesas de R$ 133,5 milhões com provisões para contingência trabalhistas, além de provisões referentes a despesas com planos econômicos de R$ 145,3 milhões. Com isso, o resultado operacional pró-forma do banco ficou negativo em R$ 729,68 milhões.

Positivamente, o lucro foi impactado pelo reconhecimento de créditos tributários de R$ 423,2 milhões. Em conferência telefônica com analistas do mercado, Guimarães informou que, excluídos os ajustes de equalização dos critérios contábeis e as despesas com planos econômicos, o lucro recorrente do Banco Nossa Caixa ficou em R$ 50,9 milhões no primeiro trimestre, ante R$ 165,6 milhões em igual período de 2008 e R$ 114,4 milhões no último quarto do ano passado.

Operações de crédito

A carteira de crédito da instituição, contudo, subiu expressivamente, alcançando R$ 13,8 bilhões no primeiro trimestre, com alta de 7,2% sobre dezembro e de 42,5% em um ano. Guimarães observou que o crescimento do banco foi bastante superior ao do mercado brasileiro de crédito, que registrou evolução de 1,1% e 25%, respectivamente. A expansão das operações foi puxada pelo crescimento no segmento de pessoa física, cujo estoque atingiu R$ 10,8 bilhões em março, alta de 8,5% comparativamente a dezembro e de 47,6% em doze meses. Com 59,8% do total de crédito destinado às pessoas físicas, o consignado registrou alta de 10,8% no trimestre e de 69,1% em um ano, para R$ 6,4 bilhões em março. No crédito à pessoa jurídica, as operações avançaram 2,9% no trimestre e 27,1% em um ano, para R$ 3,1 bilhões em março.

Assim como nos bancos que já apresentaram resultados, a inadimplência na Nossa Caixa também subiu, passando de 4,6% sobre o total da carteira em dezembro para 5,2% em março, nas operações com atrasos acima de 60 dias, puxada principalmente pela elevação de 6,6% para 9,3%, respectivamente, no estoque de empréstimos e financiamentos às empresas. Na pessoa física, o índice de inadimplência ficou estável em 4% nos mesmos períodos comparados. Com uma participação historicamente menor da pessoa jurídica na carteira de crédito total da Nossa Caixa, Guimarães disse que o BB está reavaliando a atuação na área corporativa e pretende, no futuro, ter um mix mais equilibrado no estoque de empresas e de pessoas físicas.

O crescimento das operações de crédito e da inadimplência fez o banco elevar suas provisões para crédito de liquidação duvidosa. No primeiro trimestre, essas despesas atingiram R$ 467,6 milhões alta de 130,6% no trimestre e de 152,6% em doze meses. O incremento de R$ 174,7 milhões em provisões adicionais, segundo Guimarães, decorreu também do "alinhamento à metodologia utilizada pelo BB para classificação de operações de crédito".

O bom desempenho no crédito, somado à redução nos custos de captação, resultou em uma margem financeira de R$ 1 bilhão, com alta de 2,1% no trimestre e de 12,1% em um ano. As despesas administrativas, incluindo com pessoal, foram a R$ 763,4 milhões ao final de março, com queda de 1,2% em relação ao último trimestre de 2008 e alta de 5,4% ante o apurado entre janeiro e março do ano passado.

No trimestre, os depósitos totais caíram 1,5%, para R$ 36,7 bilhões, influenciado pela queda dos volumes de depósitos à vista (de R$ 4,1 bilhões para R$ 3,9 bilhões) e de depósitos judiciais (de R$ 17,7 bilhões para R$ 17 bilhões), devido à sazonalidade, conforme disse Guimarães. Em um ano, o total de depósitos cresceu 14,9%.

Brasília - O Banco Central encontrou irregularidades nos empréstimos que o Banco BMG fez para o PT e para as empresas de Marcos Valério Fernandes de Souza, apontado como o operador do mensalão. Nos últimos sete anos - segundo documento sigiloso que o BC enviou à presidência da CPI dos Correios – o BMG cometeu mais de 170 irregularidades contábeis e financeiras.

As irregularidades dos empréstimos ao PT e a Valério são mencionadas em uma planilha com um extenso quadro das auditorias e inspeções feitas pelo BC no BMG, documento enviado à CPI no último dia 28. Em uma das "inspeções modulares" no BMG - feita no ano passado - os técnicos do Banco Central fizeram um pente fino na área de tesouraria, carteira comercial, créditos consignados, cessões de crédito e carteira de crédito.

Os técnicos do BC que realizaram a auditoria informaram aos integrantes da CPI que já expediu cartas de inspeção ao BMG apontando 10 irregularidades relativas à falta de provisão de operações de crédito, classificações de risco (de clientes) indevidas, contabilizações incorretas e problemas nos controles internos. O BC determinou ao BMG "ajustes regulamentares" no valor de R$ 68,6 milhões e a reclassificação de diversas operações de crédito, incluindo as que beneficiaram o PT, a SMP&B Comunicação e a Graffiti Participações, de Marcos Valério. O processo está "em análise" pelo Banco Central.

O PT contraiu R$ 2,4 milhões em empréstimos junto ao BMG, valor que, corrigido atinge cerca de R$ 3 milhões. Os avalistas da operação foram o ex-presidente do PT, José Genoino, o ex-tesoureiro Delúbio Soares - ambos afastados do partido - e o publicitário Marcos Valério, que contraiu mais de R$ 30 milhões (não corrigidos) em empréstimos junto ao mesmo banco, dinheiro distribuído no caixa 2 da campanha eleitoral do PT.

O pedido de informações com os empréstimos do BMG foi feito em julho pelo presidente da CPI, senador Delcídio Amaral (PT-MS), diretamente ao presidente do Banco Central, Henrique Meireles. No pedido consta ainda solicitação de informações completas sobre a fiscalização também no Banco Rural e no Banco do Brasil. A Diretoria de Fiscalização do BC enviou ofício à CPI explicando a "expressiva quantidade" de fiscalizações contra os bancos, antecipando a planilha de auditorias no BMG. Ao todo, a documentação do BMG envolve 24 processos, com 77 volumes e 9 mil páginas. Os processos que investigam o Banco Rural superam em volume os do BMG, informa o BC.

Com a planilha da auditoria em mãos, os parlamentares da CPI deverão solicitar ao BC as cópias de algumas inspeções e auditorias, especialmente a que encontrou irregularidades nos empréstimos ao PT e às empresas de Marcos Valério. Só a partir do envio do processo completo é que os deputados poderão destrinchar os problemas encontrados na inspeção modular.

Na planilha de fiscalizações, o BC dá detalhes de todos os problemas que ocorrem no BMG nos últimos sete anos. Em 1998, uma inspeção global consolidada encontrou 92 irregularidades no banco, incluindo problemas de contabilização, o que levou o BC a determinar ajustes regulamentares no valor total de aproximadamente R$ 26,7 milhões.

No ano 2000, o BC encontrou outras 39 irregularidades em apenas uma das verificações especiais feitas no BMG. Em 2001, outras 10 irregularidades foram identificadas em uma inspeção modular. Em 2003, o BC encontrou outras 21 irregularidades econômico-financeiras e determinou ao BMG ajustes regulamentares no valor de R$ 15 milhões. Grande parte destes processos foi arquivada após o BC impor as determinações ao banco.

Por intermédio de sua assessoria de imprensa, o BMG informou que o BC mandou reclassificar as operações de crédito só depois que veio à tona a denúncia do mensalão. Antes da denúncia do mensalão, segundo a assessoria, os empréstimos eram considerados normais. Os empréstimos foram feitos em 2003 e 2004, segundo a assessoria, época em que o PT era o partido da ética e Valério um empresário respeitado. O BMG informou que, após receber as determinações do BC, alterou o provisionamento e mudou as taxas de risco. O banco está executando as operações de crédito.